12/11/09
11/11/09
O mundo não me tocara e fecundara em vão
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever - enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão.
Objectos


No autocarro observava uma adolescente a utilizar frenéticamente o telemóvel.
Mandava mensagens, atendia chamadas, voltava às mensagens, recebia chamadas.
- Sim, vou ter contigo, mas tenho que passar em casa. Não, eu quero ir, mas tenho mesmo que passar em casa. Não, eu nem preciso de levar roupa, mas tenho mesmo que ir buscar o carregador.
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Esculturas,
Exposições
10/11/09
A gente vai continuar
Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Jorge Palma
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Escritos
09/11/09
08/11/09
Fernando Maurício - Boa noite solidão
Boa noite solidão
Vi entrar pla janela
Teu corpo de negrura
Quero dar-te a minha mão
Como a chama duma vela
Dá a mão à noite escura
Os teus dedos solidão
Despenteiam a saudade
Que ficou no lugar dela
Espalhas saudade plo chão
E contra a minha vontade
Lembras-me a vida com ela
Só tu sabes solidão
A angustia que trás a dor
Quando o amor a gente nega
Como quem perde a razão
Afogando o nosso amor
No orgulho que nos cega
Com o coração na mão
Vou pedir-te sem fingir
Que não me fales mais dela
Boa noite solidão
Agora quero dormir
Porque vou sonhar com ela
Vi entrar pla janela
Teu corpo de negrura
Quero dar-te a minha mão
Como a chama duma vela
Dá a mão à noite escura
Os teus dedos solidão
Despenteiam a saudade
Que ficou no lugar dela
Espalhas saudade plo chão
E contra a minha vontade
Lembras-me a vida com ela
Só tu sabes solidão
A angustia que trás a dor
Quando o amor a gente nega
Como quem perde a razão
Afogando o nosso amor
No orgulho que nos cega
Com o coração na mão
Vou pedir-te sem fingir
Que não me fales mais dela
Boa noite solidão
Agora quero dormir
Porque vou sonhar com ela
07/11/09
Caos
Café Piolho
Praça Parada Leitão, nº 45 - Porto
dia 7 de Novembro
às 18H
Praça Parada Leitão, nº 45 - Porto
dia 7 de Novembro
às 18H

José Matos, professor do Departamento de Matemática do ISEP e investigador do Centro de Matemática da Universidade do Porto, irá mostrar como se aprende Matemática no café.
Já nos seus tempos de estudante, no ambiente informal do Café Piolho dos anos 80, se reuniam condições propicias à descoberta de teorias matemáticas então emergentes, como a Teoria do Caos e a Geometria Fractal.
Já nos seus tempos de estudante, no ambiente informal do Café Piolho dos anos 80, se reuniam condições propicias à descoberta de teorias matemáticas então emergentes, como a Teoria do Caos e a Geometria Fractal.
Esta aula integra-se no programa de comemorações do centenário deste café.
Hoje, como há cem anos, tudo se aprende no café. Até a Matemática.
Hoje, como há cem anos, tudo se aprende no café. Até a Matemática.
retirado do pimentanegra
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Agenda
06/11/09
Horas Extraodinárias
Horas? Agora não pagamos.Tens direito a dias.Não. Tenho direito a receber o dinheiro correspondente às horas que trabalhei depois do meu horário.
Não, tens direito a dias, ou então não recebes nada.
E quando vou ao supermercado como é que pago as compras?Em dias?
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Instalações
05/11/09
bleib opus#3
O que é que cinco cães pastor belga, um filósofo, um psicanalista, um bailarino e um actor fazem juntos num palco de teatro?Desde Maio de 2005 que Michel Schweizer mantém uma conversa fértil com Dany-Robert Dufour, filósofo, e Jean-Pierre Lebrun, psiquiatra e psicanalista, sobre alguns dos temas cruciais da sociedade contemporânea: a liberdade individual e a imposição do consumismo, o ensino e a uniformização, a política e a manipulação. Criado em 2007, é impressionante como “Bleib Opus #3” profetiza a falência do capitalismo desenfreado que criou a actual crise mundial. Interroga como nos tornámos individualistas e obcecados pelo consumo sem nos dar conta de que estamos a ser manipulados.
:: michel schweizer à conversa no espaço alkantara - calçada marquês de abrantes, 99
19 novembro 19h00 conversa com o artista - entrada livre
:: bleib opus #3 no teatro maria matos - av. frei miguel contreiras 52
21 e 22 novembro 21h30 apresentação do espectáculo - 12 €
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Agenda
04/11/09
Ausências Premeditadas 2
O partido "socialista" agradece à direita e à igreja por colocarem agora a questão do referendo ao casamento gay, assim ao rebater a direita aproveita para passar o aviso à esquerda, casar sim, adoptar não. Não era possível ao PS manter o silêncio sobre o casamento por muito tempo, mas adiava-o pois teria que falar da sua inerente proibição da adopção. As condições ideais estão agora criadas para avançar, com o PS ao centro, a razoabilidade simbólica. Nem o radicalismo da direita, nem o da esquerda, o PS apresenta-se como a virtude, o equilíbrio. O PS, é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas é contra a adopção de crianças por esses casais. Porquê? Porque não está no programa! Esta explicação soa a déjà vu, será possível ou é apenas uma ilusão?
Porque é que existe um estranha dificuldade de coerência quando o PS trata de questões que envolvem relações entre “pessoas do mesmo sexo”, será esse assunto assim tão difícil de tratar? Isso da igualdade tem que ser com peso e medida. Se daqui a 4 anos o PS ganhar novamente as eleições, talvez então possam conceder mais um bocadinho de igualdade. Igualdade mas aos poucos.
O PS pretende inverter o ónus da culpa afirmando que não prometeu a adopção no programa eleitoral, tratando os assuntos adopção e casamento como se fossem independentes, o que até deviam ser, mas neste caso não são.
Sócrates e os socialistas sabiam perfeitamente que se por um lado davam um passo pela igualdade, legalizando o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado sabiam que quando o fizessem teriam que criar uma nova discriminação, uma nova desigualdade, a proibição da adopção.
Portanto estaremos neste sentido a institucionalizar novas formas de desigualdade ou a avançar para a igualdade? Estaremos neste caso a criar casais de 1º com todos os direitos incluídos e os casais de 2ª com um tratamento diferente, excluídos de alguns direitos?
Vale a pena perguntar ao sr. Deputado Miguel Vale de Almeida, se depois da legalização do casamento à lá PS, a tarefa que se segue é o lobbying pela adopção?
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Escritos
O mundo e o ser humano
"Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente"
Claude Lévi-Strauss em 2005, quando recebeu o 17º Prémio Internacional Catalunha
Claude Lévi-Strauss em 2005, quando recebeu o 17º Prémio Internacional Catalunha
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Ditos
03/11/09
Arcebispada - José Afonso
Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chibo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abrenúncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abrenúncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote
02/11/09
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