07/03/12

Não se recomenda















Carta aberta aos camaradas Francisco Louçã e Mariana Mortágua.
Camaradas,
   Foi com alguma surpresa que soube que Marcelo Rebello de Sousa tinha sido escolhido para apresentar o vosso livro. Não posso realmente dizer que tenha ficado muito surpreendido pois conheço bem o funcionamento das elites, sei que elas são transversais a esquerda e a direita e sabem proteger-se muito bem. Estar afastado delas ajuda a compreender este fenómeno.
   A escolha foi assumida publicamente pelo camarada Francisco Louçã como “polémica”. De facto é polémica, mas apenas para aqueles que nutrem respeito por ambos os camaradas, para aqueles que não esquecem de que lado da barricada estão na luta de classes. Para a burguesia portuguesa esta escolha foi, na melhor das hipóteses, cómica.
   Digo-vos que enquanto estratégia de marketing, caso tenha sido esse o motivo do convite (não consigo ver outro), parece-me uma má opção. Dou-vos o exemplo da notícia publicada no jornal PÚBLICO que refere apenas a intervenção de Marcelo e a sua oposição às ideias veiculadas pelos camaradas no livro.
   Pergunta o camarada Francisco Louçã no facebook “porquê havemos de seguir o velho preconceito de que quem apresenta um livro é quem está necessariamente de acordo com ele?” E responde a si próprio: “Só vejo vantagens em quebrar esse tabu, convidando alguém que tem certamente outra visão, mas que está bem informado e promove o debate”.
   Errado, camarada. Porquê é que tem que ser a esquerda a promover o debate, quando a burguesia não o faz, utilizando todo o tempo de antena de que é proprietária na defesa dos seus interesses? Como se já não bastasse a supremacia da divulgação de ideologia neo-liberal nos meios de comunicação social em relação a qualquer ideia alternativa, onde Marcelo pontifica, actualmente temos o partido de Marcelo a utilizar o seu poder político no governo para censurar todas as vozes incómodas que consegue.
   Os camaradas perderam uma excelente oportunidade de terem convidado uma família endividada, uma das cem mil pessoas que têm o salário penhorado, um dos quase dois milhões de pobres em Portugal. Isto sim teria sido uma escolha polémica, mas para a burguesia. São essas as vítimas da Dividadura, são essas as pessoas que mereciam ter tido uma oportunidade de denunciar publicamente as consequências directas do capitalismo nas suas vidas. Espero que seja sobre isso que fale o livro. Eu não o irei comprar nem ler, portanto não o saberei. Encontro-me a modos que, endividado.

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem escrito!

Na televisão, os comentadores, politólogos e analistas do centro e da direita (PS, PSD e CDS), dominam quase exclusivamente.
O camarada Louçã acha pouco. Vai daí, oferece o seu púlpito para a direita nos esclarecer.
O camarada Louçã é altruísta.
O camarada Louçã é democrata.
O camarada Louçã é bem comportado.

Melhor seria que fosse coerente.
Na esquerda isso é importante. Ou já se esqueceu?

Zé Jesus

Luís disse...

Quando leio comentários de carácter politiqueiro, realmente fico assustado, contudo agradeço-os por afirmarem na minha consciência humana que não faço nada aqui...neste Portugal corriqueiro e de olhares obtusos... a representatividade cultural e ideológica deve ser transversal... e não nos devemos refugiar em aspectos diminutos da vida politica nacional, porque esses aspectos só obscurecem a real dimensão da "família endividada","das cem mil pessoas que têm o salário penhorado", ou "dos quase dois milhões de pobres em Portugal". Estes flagelos humanos devem andar bem longe dos discurso dos camaradas de esquerda ou de direita... porque tratam-se em absoluto e de forma irrefutável de valores humanos, que não partilham cores politicas, mas que devem ser partilhados, denunciados, e defendidos por todos. O Mundo mudou, temos que nos conformar com esse desconfortável facto... vamos nós mudar também, fazendo Dele um lugar bem melhor... bem mais Humano, e definitivamente bem menos politico.