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21/03/12

Valsa quase antidepressiva

Dança comigo a primeira valsa da Primavera: dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera. Já enchi os dias de lutas vazias: estou gasto, cansado, dormente. E a um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda não fico indiferente. Fala comigo na palavra falsa da fantasia: chovem amigos na festa da praça do meio dia. É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo. Se este mundo fosse feito para ser doce eu seria doce fosse eu quem fosse. Foge comigo na última volta da maratona, nada comigo num lago indeciso de metadona. Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar.
letra JP Simões, música Sérgio Costa

11/05/11

Poesia dos Lugares

Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16

18 e 19 de Maio, a partir das 17H

01/02/11

Parva que sou

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Deolinda

21/06/10

1922 - 2010

“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.”

José Saramago

06/04/10

intelectuais

"Há uma categoria chamada ‘intelectuais’ que fazem coisas simples parecerem difíceis. Há áreas em que especialistas são necessários, como na física quântica, mas em questões mundiais qualquer um aqui pode saber tanto quanto os especialistas."

Noam Chomsky
(Em conferência de imprensa durante o Fórum Social Mundial 2003, respondendo a um repórter que havia pedido a opinião dele como especialista)

04/03/10

Frágil Poesia 2010

Dia 4 de Março: José Luís Peixoto lido por Margarida Cardeal, música de Miguel Nicolau e imagens de Adriana Freire.
Dia 11 de Março: Mário de Sá Carneiro lido por Lucília Raimundo, música de Adriano Filipe.
Dia 18 de Março: Poesia Concreta lida por José Wallenstein, música de Paulo Abelho e João Eleutério, vídeo de Paulo Américo.
Dia 25 de Março: João Negreiros lido por João Negreiros, música de Sérgio Castro.


Frágil
Rua da Atalaia, 126
De 4 a 25 Março
Todas as 5ªs, às 23h

11/02/10

Adeus


Mário Viegas diz Eugénio de Andrade

10/02/10

Frase do dia


morrer saudavel para quê?

31/01/10

tecnologia

Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.
Albert Einstein

25/01/10

morte

"As pessoas sentem a minha escrita como uma agressão; elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte; eu não as condeno à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas" (Michel Foucault)

11/11/09

O mundo não me tocara e fecundara em vão



Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever - enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão.

Herberto Helder in Os Passos Em Volta

04/11/09

O mundo e o ser humano

"Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente"

Claude Lévi-Strauss em 2005, quando recebeu o 17º Prémio Internacional Catalunha

21/10/09

disse heresias e os reaccionários começaram a saltar da toca

«a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana»

«A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!»

«O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!»

«Todo esse horror em nome de um Deus que não existe, nunca ninguém o viu»

«as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram».

«no Catolicismo os pecados são castigados com o Inferno eterno. Isto é completamente idiota!». «Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer»

«Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?»

«Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca».

José Saramago

As polémicas declarações de Saramago são evidências para todos, os que na posse da capacidade de se questionarem, têm ou já tiveram contacto com a igreja católica, a catequese, a religião e moral, a história, etc.

As reacções reaccionárias demonstram o quão atrasados ainda estamos e justifica perfeitamente a pertinência de Saramago insistir nestes tópicos.